Otimismo, sim, mas com cautela: porque a vida não é um unicórnio colorido.

Para esse novo ciclo, acho que o meu maior desafio é o de parar de viver de “e ses”. Não somente o habitual e autossabotador “e se” negativo, esse velho conhecido que nos gera mais medo do que aquele filme de terror que não conseguimos assistir sozinhos à noite, mas, também, aquele “e se” positivo dos contos de fada que, ao contrário de pressupor que algo de ruim vai nos acontecer, mesmo que nunca aconteça, acaba gerando grandes expectativas e consequentes frustrações. Fazendo uma analogia ao mundo dos investimentos, que tanto tem para nos ensinar sobre paciência, disciplina, inteligência emocional e resiliência, a vida se assemelha muito mais aos gráficos da renda variável, cheios de altos e baixos, do que ao crescimento em linha reta de uma renda fixa, bem mais previsível e constante. Pensar que não vai dar certo é uma coisa. Acreditar que nunca vai dar errado é outra bem diferente.

E se não der certo? E se rirem de mim? E se eu fizer papel de bobo? E se me julgarem? E se me criticarem? E se for muito pior do que eu imagino? E se eu me arrepender e não tiver mais como voltar?

Esses são de lascar mesmo. Paralisam. Empacam. Fazem a gente esquecer que coragem não é ausência de medo, mas agir apesar de. Minam oportunidades. Fecham a porta e vão embora, desafiando os nossos sensos de autocrítica e racionalidade: parece que estamos presos, que não há saída, mas a chave continua nas nossas mãos. Como pode?

Sim. O “e se” é como uma droga que deixa a gente muito doido e muito cego, principalmente quando, além do negativismo habitual, vem acompanhado do arrependimento por algo que já ficou lá atrás, no passado, e que, portanto, não volta mais. E se eu tivesse feito diferente? E se tivesse arriscado? E se tivesse acreditado mais em mim? E se não tivesse seguido pelo caminho que eu segui, feito a escolha que eu fiz, agido do jeito que eu agi? E se?

Ele cria um universo paralelo, um mundo irreal e atemporal, que se constrói apenas de passado e de futuro: o que já passou e que não tem mais jeito de a gente mudar. E o que talvez nunca seja do jeito que a gente imagina, por mais que a gente faça planos e tente conjecturar como é que ele será.

Em linhas gerais, no bom e não tão claro português: o se é um lugar que só existe mesmo na sua cabeça. Quanto mais você o alimenta e o deixa ditar as suas escolhas, mesmo que baseadas na expectativa de um “e se der certo?”, “e se for melhor do que eu imaginava?”, mais você corre o risco de se machucar muito depois, principalmente quando, em função dessa positividade toda, você começa a ignorar totalmente as chances de algo dar errado também. Porque, olha, vai dar. E isso não tem nada a ver com a Lei de Murphy, mas, sim, com as leis da vida mesmo.

Nem sempre vai dar certo, por mais que você tenha acertado, lutado, estudado, desejado, pensado e planejado lá atrás. Assim como nem sempre vai dar errado também, por mais que você tenha vacilado ao longo do caminho.  Às vezes vai ser muito melhor do que você imagina mesmo. Em outras, muito pior, por mais que você grite e se descabele. Não é todo mundo que vai comprar a sua ideia, compartilhar do seu sonho, sonhar junto com você. Assim como não é todo mundo que vai julgar e criticar as suas escolhas, as suas ideias, os seus sonhos, a sua maneira de ser e viver.

Haverá dias de sol e céu azul, eu sei, mas pode contar também com os dias cinzas de tempestade. Você não estará feliz e sorridente o tempo todo, mas, por outro lado, aquele dia difícil, aquela semana ruim, aquele mês conturbado e aquele ano que passou longe de ser o ano que você gostaria de ter vivido não vão durar para sempre.

Pode ser que você se perca algumas vezes no meio do caminho, só para entender, mais tarde, que perder-se também faz parte da jornada. E pode ser que um caminho mais fácil, mais leve, mais colorido e mais divertido se apresente para você justamente naquele momento em que você já estava pensando em desistir de caminhar. Pode ser que uma frase de para-choque de caminhão seja a virada de chave que você precisava para assumir o volante da própria vida, ou mesmo aquela conversa que você escutou “por acaso” entre dois estranhos na rua.

Pode ser que justamente aquela pessoa com a qual você mais contava, num momento de dificuldade, se negue a te estender a mão. Assim como pode ser, também, que aquela que você nunca imaginava seja a pessoa que te ajude a encontrar a saída, não só clareando o percurso, mas caminhando junto com você.

Pode ser que a vida tenha que te revirar do avesso para que você se encontre do lado de dentro. Ou que tenha que te cortar o umbigo para que você aprenda a olhar para o outro com um pouco mais de respeito e empatia.

Pode que você decida empreender uma verdadeira mudança na sua vida. Ou pode ser, também, que entenda que a maior mudança de todas talvez seja a de aprender a lidar com tudo aquilo o que não depende de você para mudar.

Pode ser que te digam um sim em forma de não, ou um não em forma de sim, só para que você aprenda que, às vezes, nem todo sim é bom e nem todo não é ruim. Tudo depende. Mesmo. Principalmente de você.

Justamente por isso, reafirmo: talvez o meu maior desafio seja o de parar de viver de “e ses” e aprender a viver de escolhas e renúncias, ganhos e perdas, dias bons e dias ruins. Agir com coragem e ousadia, sim, mas com uma boa colherada de cautela e também uma pitadinha de medo.

Vibrar positivo e se arriscar na vida é o que te tira da zona de conforto e o que faz uma bela diferença nessa experiência incrível que é o viver. Mas é o medo de morrer que te faz abrir o paraquedas quando você está em queda livre.

Nunca se esqueça disso.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *