Reflexões de quarentena.

Há tempos venho ensaiando escrever por aqui. Rascunho alguma coisa, apago. Fecho todas as janelas do navegador. Navego nos meus próprios pensamentos. Penso muito. Às vezes, acho que vou afundar. Submerjo. E a sensação é a de que vou perder o fôlego mesmo. Então eu me lembro de tantos os que estão perdendo de fato. O fôlego. A esperança. A vida. Sinto uma tristeza tão grande… Em silêncio, agradeço pelo que eu ainda não perdi. Volto a respirar. E escrevo…

Olho para os 3 meses anteriores a esse texto e já não consigo mais reconhecer aquele mundo em que a gente vivia. Coisas simples, de rotina, são as minhas maiores saudades. Sinto falta das corridas de rua no início de cada manhã, das aulas de pilates ao som de MPB, de cumprimentar as pessoas com abraços, beijos e aperto de mão. Sinto falta de andar pelas ruas e de ver gente nelas, de planejar o final de semana e de sentar numa mesa de bar com os meus amigos para falar sobre tudo e sobre nada, encontrar o meu namorado, deitar no colo, sentir a presença, brigar por motivos idiotas, assistir a um filme no cinema, passear de mãos dadas no shopping, sair pra jantar, reunir a família, comemorar um aniversário com muita gente envolvida, ir ao salão para pintar as raízes brancas do meu cabelo… Sei lá. Até de aglomerações em shows, no estilo “não consigo nem me mexer”, que eu detestava, sinto falta. Até de ir ao estádio de futebol, para acompanhar um jogo do meu time do coração, o que há anos eu não fazia, sinto vontade agora.

Às vezes tenho a sensação de que esse “novo normal” veio justamente para nos obrigar a refletir sobre o quanto fomos nos perdendo ao longo do caminho, normalizando o automático, a correria, o “não tenho tempo pra nada”, o “tempo é dinheiro”, o “depois a gente combina”, só para nos escancarar a importância de valorizar o agora diante da brevidade e da fragilidade da nossa própria existência. Um sopro, diziam em vão. Mas agora o entendimento é outro: a vida é um sopro mesmo. Um sopro. Um sopro.

Presos dentro de casa, com horas de sobra, muitos de nós, que antes reclamávamos tanto da falta de tempo, já não sabemos mais o que fazer com ele. Para quem as horas ainda faltam, uma pressão a mais: a cobrança pela produtividade em tempos de pandemia. Alta performance, dizem. E o sujeito tendo que lidar com metas, prazos, aulas, relatórios, contas, casa, filhos, provas e o no sense enquanto tenta desesperadamente conseguir o mais básico diante de tudo o que estamos vivendo: não surtar.

Sim, não está fácil mesmo.

Principalmente enquanto ainda assistimos, atônitos, à normalização da morte: mais de 600 aqui, em um único dia; milhares de vidas perdidas ao redor do mundo. Em 24 horas também. Vinte e quatro. Gente morrendo dentro de casa. Leitos hospitalares quase que totalmente ocupados. Colapso nos sistemas de saúde e econômico. Ninguém saiu ileso.

Por aqui, entretanto, como se não bastasse tudo isso, a crise também é política, social, moral, ética e sabe-se lá mais o quê. É o Brasil se superando de novo. Em número de mortes, inclusive. Tristeza é eufemismo. Aquilo que a gente sente ainda não tem nome.

O contraditório, porém, é que, apesar dos pesares todos, ainda escolhi acreditar. No mundo. Nas pessoas. Em mim mesma. Porque, olha, como já escrevi e já disse por aí: acreditar não custa nada. É o preço da descrença o que tem nos custado caro demais.

Do meu diário de quarentena, eis a única coisa que eu nunca deixo de escrever, todos os dias:

“Lembre-se de fechar os olhos e de respirar profundo. De ajudar a quem precisa. De não se deixar guiar pela cotação do dia ou pela última notícia catastrófica que anuncia o apocalipse. Se não for operar renda variável nesse momento, feche o Home Broker. Se não for atuar na linha de frente, com serviços essenciais, fique em casa. Agradeça pelo que você ainda tem. Coma o seu chocolate sem culpa. Chore o que tiver que chorar. Produza o que der conta. Não se pressione. Mande uma mensagem para pelo menos um amigo todos os dias. Pergunte como ele está. Converse. Mostre que se importa. Você não pode controlar absolutamente nada o que seja externo a você, é verdade, mas você pode escolher fazer a sua parte para que tudo isso termine da melhor maneira possível. Eu sei que está muito difícil agora, mas, acredite: essa crise não vai durar para sempre. Vai passar”.

Recorrendo às palavras de Carpinejar: ” Quando é fechada uma janela, você derruba a parede para fazer uma nova porta”.

Vai ser diferente, eu sei.

Mas vai ser melhor.

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